O MUNDO DOS PETS EXÓTICOS – RÉPTEIS

            Cada vez mais os animais fazem parte da nossa rotina. Afinal, quem não quer voltar para casa depois de um dia cansativo de trabalho e ter uma fofura esperando, cheia de amor? Essa proximidade com os animais começou com o cãopanheiro, depois vieram as crazy cat people e, finalmente, os animais exóticos estão ganhando um lugar cada vez maior no coração (e na casa) das pessoas.

Temos uma enorme variedade de animais exóticos sendo adotados como pets, então vamos começar falando dos répteis. Essas criaturas misteriosas, diferentes, curiosas e até temidas (erroneamente), tem despertado o interesse de muitas pessoas, que consideram incrível a ideia de ter um animal tão extravagante e que exige tão pouca atenção e cuidado. Mas será que é tão simples manter um réptil em cativeiro? Basta um aquário, uma lâmpada e algumas refeições semanais? A resposta é não. Para que seu réptil tenha uma vida com qualidade e saúde, existe uma série de cuidados e rotinas que devem ser seguidos minuciosamente.

O primeiro ponto a ser observado é a procedência do réptil que você vai adotar. O comércio de animais exóticos deve obedecer uma série de regulamentações criadas e fiscalizadas pelo IBAMA, mais especificamente no SISFAUNA (veja maiores informações AQUI), o que evita o tráfico de animais, ou seja, a retirada de espécimes de seus ambientes naturais e o transporte até os centros comerciais, prática que sempre é acompanhada de métodos agressivos e de maus tratos. Então, lembrem-se: só comprem pets legalizados e evitem, assim, a morte e crueldade com milhares de animais. 

Após a compra consciente de seu réptil legalizado pelo IBAMA, ele vai precisar ter algum lugar para ficar, certo? Então enquanto você procura criadores e vendedores que atuem dentro da lei, já pode ir montando o recinto em que seu novo pet ficará. Veja bem: eu disse recinto, e não aquário ou pote ou qualquer variação disso. Apesar de serem animais, em sua maioria, pouco ativos, eles precisam de um ambiente espaçoso e adequado às suas necessidades.

Existem alguns fatores básicos que devem ser observados para a manutenção adequada de répteis em cativeiro: temperatura, umidade, alimentação, iluminação, alocação, higiene e cuidados veterinários.

 

Temperatura

Como os répteis não conseguem manter a temperatura corporal sozinhos, o recinto precisa ser adequado para garantir que eles tenham uma zona de conforto térmico, ou seja, possuir temperaturas diferentes que permitam ao animal escolher qual o local mais adequado para cada momento.

E como fazer isso? O modo mais simples de atingir esse objetivo é colocando um sistema de aquecimento em um dos cantos do recinto. Dessa maneira, o calor vai se propagar até o outro canto, fornecendo a variação de temperatura necessária.

Existem vários equipamentos destinados ao aquecimento de recintos, que vão desde lâmpadas infravermelhas ou cerâmicas de aquecimento (que devem ser colocadas fora do recinto, a uma distância de no mínimo 30cm), a pedras e mantas de borracha aquecidas (que possuem proteção externa que evita que os animais sofram queimaduras ao entrar em contato com o material aquecido). A escolha do equipamento ideal deve ser baseada em cada caso específico, e sempre auxiliada por um profissional que vai direcionar as escolhas para o maior bem-estar possível do animal.

Além dos equipamentos que garantem a temperatura do recinto, é necessário que essa temperatura seja controlada para se manter estável e dentro do exigido para cada animal. Para isso, é imprescindível a presença de termômetros confiáveis e posicionados corretamente. É ideal a presença de termômetros na área que o animal mais frequente e nos locais mais e menos aquecidos, além de sensores termostáticos para evitar o superaquecimento do equipamento.

 

Umidade

A umidade pode representar um problema em dois extremos: ambientes muito secos (20% ou menos) favorecem a desidratação dos animais, e ambientes muito úmidos favorecem o surgimento de fungos e bactérias no recinto, que podem se estender aos animais.

Os métodos para manter a umidade ambiental adequada podem ser: a presença de um grande vasilhame de água (grande superfície de evaporação); nebulizadores ultrassônicos (que, além de garantir a umidade, proporcionam um bonito efeito de névoa); e o bom e velho pulverizador de plantas (para borrifar um pouco de água quando for necessário). O equipamento que mede a umidade relativa do ar (em porcentagem) é o higrômetro, e deve fazer parte do kit básico na hora da montagem do recinto.Adquira um instrumento chamado higrômetro para saber a porcentagem (%) de umidade em seu terrário.

 

Alimentação

Assim como os humanos, os animais também precisam de uma alimentação adequada e balanceada para garantir a saúde plena.

A necessidade nutricional de cada espécie (e de cada indivíduo dentro de uma mesma espécie, em função de idade e época do ano) é diferente. E, mais uma vez, o acompanhamento do processo de adoção de um réptil por um profissional capacitado se prova necessário.

A prática de alimentar o seu pet deve ser bem elaborada, pois cada espécie possui um comportamento alimentar diferente. Por exemplo, alguns animais só aceitam a presa viva, ou só se alimentam à noite, ou preferem comer em um local mais elevado.

Um fator muito importante a ser considerado é a qualidade do alimento fornecido. Um paralelo que deixa tudo muito claro é: uma pessoa que só come fast food vai estar com a barriga cheia, mas não vai estar ingerindo os nutrientes que precisa para ficar saudável. Então, pode-se concluir, que um animal carnívoro não deve ingerir apenas carne, ou um animal insetívoro não deve ingerir apenas o mesmo tipo de inseto.

E as rações? Elas não servem justamente para evitar esse tipo de problema? Infelizmente, no caso dos répteis, ainda não temos uma ração que seja capaz de suprir totalmente as necessidades nutricionais, sendo exigida sempre uma complementação baseada nos hábitos alimentares do pet. E, assim como ocorre com cães e gatos, cada ração possui uma composição diferente, oferecendo quantidades diferentes de proteínas, que podem gerar transtornos alimentares gravíssimos se não forem adequadas.

Como os répteis não são bobos, sempre vão procurar primeiro o que os apetece mais. Então, deve-se tomar cuidado para que o pet não selecione a alimentação apenas para o que mais gosta de comer, recebendo uma sobrecarga de alguns nutrientes e ficando carente de outros. Ter um bichinho de estimação também exige que tenhamos cuidados de pais!

Em relação à agua, é necessário que esteja sempre à disposição de acordo com a exigência comportamental do animal, ou seja, sendo apresentada da forma que cada espécie está acostumada a beber na natureza (de maneira corrente, em recipientes fundos, lâminas d’água, entre outros). E sempre água fresca e limpa!

 

Iluminação

Manter períodos de iluminação e escuridão adequados é muito importante, de maneira a termos dia e noite distintos e com horas de iluminação que devem variar de acordo com a época do ano (dias mais longos no verão e mais curtos no inverno).

Além disso, a radiação ultravioleta em doses adequadas também é necessária para a saúde do seu pet. Ela pode ser obtida por luz solar direta, sem ser filtrada por vidros, de duas a três horas diárias, fora do horário de sol a pino. Uma forma mais prática de fornecer essa radiação é através de lâmpadas fluorescentes específicas para répteis, que fornecem as concentrações de radiação adequadas e não geram muito calor, não sobreaquecendo o ambiente.

 

Alocação

Cada recinto vai variar de acordo com a espécie que irá habitá-lo e suas necessidades biológicas. Vamos dividir a construção do recinto em tópicos, para facilitar a compreensão:

1- dimensões:

As dimensões do recinto são baseadas no comprimento corporal do animal, que vamos chamar de “CC”, para facilitar a leitura.

 

Lagartos: o CC é a medida que vai da ponta do rosto até a ponta da cauda.

As dimensões mínimas do recinto devem ser:

-comprimento: 2 a 3 vezes o CC

-largura: 1 a 1 ½  vezes o CC

-altura para animais de hábitos terrestres ou fossoriais: 1 a 1 ½ vezes o CC

-altura para animais de hábitos arborícolas ou trepadores: 2 a 3 vezes o CC

 

Serpentes: o CC é a medida que vai da ponta do rosto até a ponta da cauda.

As dimensões mínimas do recinto devem ser:

-comprimento: ¾ do CC

-largura: 1/3 do CC

-altura para animais de hábitos terrestres ou fossoriais: ¾ do CC

-altura para animais de hábitos arborícolas ou trepadores: 1 vez o CC

 

Quelônios aquáticos e semi-aquáticos: o CC é a medida do comprimento da carapaça do animal.

As dimensões mínimas do recinto devem ser:

-comprimento: 4 a 5 vezes o CC

-largura: 2 a 3 vezes o CC

-altura: 1 ½ a 2 vezes o CC em profundidade de água e 1 vez o CC acima do nível do solo

-área seca: adicione mais pelo menos o equivalente a meia área dimensionada acima de área de terra seca

 

Quelônios terrestres: o CC é a medida do comprimento da carapaça do animal.

As dimensões mínimas do recinto devem ser:

-comprimento: 4 a 5 vezes o CC

-largura: 3 vezes o CC

-altura: 1 e ½ a 2 vezes o CC

 

É importante ressaltar que esses são valores genéricos, que podem mudar de acordo com a necessidade ou os hábitos dos animais. Por exemplo, as dimensões devem ser aumentadas uma vez para cada animal a mais no recinto e, se forem animais territoriais ou agressivos, a medida precisa ser muito maior que o dobro necessário para cada um.

 

2- ventilação:

Deve-se encontrar o equilíbrio entre a ventilação necessária para a boa circulação do ar, evitando acúmulo de gases tóxicos e fornecendo ar sempre fresco, sem que exista a formação de correntes de ar que causem perda de calor excessiva, desidratação e desconforto.

 

3- material

Uma das principais preocupações em relação ao material em que o recinto vai ser confeccionado é a facilidade de higienização. Todos os materiais que podem ser facilmente higienizados possuem seus prós e contras, então a escolha final deverá ser baseada em fatores como a biologia do animal, o local do recinto, as condições climáticas e ambientais, capital disponível, entre outros. Novamente, a opinião de um profissional é fundamental para evitar erros.

Em relação ao substrato de fundo, a escolha deve levar em conta o comportamento da espécie do pet. Por exemplo: não devemos usar areia ou serragem para um pet que se alimenta no chão, pois podem causar doenças quando ingeridos junto com a comida. O substrato ideal não possui pontas perfurantes, superfície cortante ou excessivamente abrasiva, além de ser de fácil higienização e não reter umidade excessiva, proporcionando conforto térmico.

Alguns exemplos de substratos que podem ser usados, sempre levando em consideração a espécie e os hábitos do pet para a escolha final, são: papel-toalha, cascalho de seixos rolados, musgos, lascas de cortiça vegetal seca (sempre livres de resinas e odores), ou substratos sintéticos, como grama artificial. Deve-se evitar usar serragem ou casca de arroz, pois pode ocorrer a formação de bolores e comprometer gravemente a saúde do pet.

Outro fator importante para o conforto do animal é a presença de um abrigo, que pode ser um vaso de cerâmica emborcado, com uma abertura lateral e impermeabilizado (para que não roube a umidade do ar e faça com que o réptil fique desidratado). Esse abrigo deve ter uma cama (carpete, manta de borracha atóxica, isopor, entre outros), para isolar o corpo do animal do frio do substrato quando estiver repousando.

As considerações ornamentais devem atentar para a escolha dos galhos, que não devem ser verdes ou possuir resina. Se optar por ter plantas vivas, evite plantas tóxicas, que produzam seiva leitosa, com bordas serrilhadas e cortantes e muito sensíveis, que não resistam ao pisoteio dos animais. As plantas artificiais destinadas à ornamentação são uma boa opção, devendo-se buscar as que sejam resistentes e atóxicas. Junto com a questão ornamental, deve-se levar em consideração o enriquecimento ambiental, fornecendo materiais para que o pet possa se sentir no habitat natural e manter os comportamentos específicos da sua espécie, sem que existam riscos para sua saúde. Esse enriquecimento vai manter o animal entretido e ativo, evitando muitos desvios comportamentais que ocasionam sérios riscos à saúde.

 

4- higienização:

Após a lavagem e desinfecção do recinto e dos objetos, incluindo as vasilhas, os brinquedos e a decoração, deve-se enxaguar tudo de maneira exaustiva, para evitar que resíduos de desinfetante permaneçam e causem dano à saúde do pet.

A limpeza deve ser feita com água e sabão, auxiliada por esponja ou escova. Em seguida, deve-se realizar a descontaminação com agentes de limpeza associados a agentes descontaminantes (pode-se utilizar álcool 70%, em três aplicações). O enxágue deve ser minucioso e repetitivo. Finalmente, seca-se tudo com um pano limpo e seco.

Nunca realize a limpeza com o pet dentro do recinto, pois pode ocorrer a formação de vapores tóxicos que prejudicarão a saúde do animal.

 

 5- cuidados veterinários:

Depois de montado o recinto, está tudo pronto para buscar seu novo amigo! É ideal que logo após a aquisição do pet, você o leve até um veterinário especializado no atendimento de répteis, para que ele realize uma avaliação da saúde geral, adote as medidas de vermifugação, faça o controle e/ou prevenção de ectoparasitas, forneça as orientações sobre o procedimento de quarentena e tire todas as suas dúvidas sobre esse novo membro da família.

 

E então, está disposto a seguir todos os passos necessários para ser responsável por um réptil feliz e saudável? Se sim, meus melhores desejos a vocês! Se não, repense a decisão de ter um pet, pois ser responsável por uma vida é uma tarefa muito importante e exige dedicação integral.

 

cobra bebendo agua 1

 

E aí? Gostou do texto? Deixe sua opinião nos comentários e ajude a divulgar a informação!

 

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Texto: Daniela Hänggi
Médica Veterinária pela Faculdade Evangélica do Paraná – FEPAR
Colaboradora da ONG Instituto Boitatá

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